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FAHRENHEIT 451: ENTRE O FOGO DE TRUFFAUT E O DE BAHRANI As duas versões sao baseadas na obra literaria de mesmo nome de Ray Bradbury de 1953. por Vespasiano Aurélio fotos divulgação Jaboticabal, 16 de outubro de 2025 Mais de meio século separa as duas versões cinematográficas de *Fahrenheit 451*, a distopia literária de Ray Bradbury. Em 1966, o francês François Truffaut transformou o romance em um filme sobre censura, alienação e resistência intelectual, numa das raras incursões de um cineasta da Nouvelle Vague pela ficção científica. Já em 2018, o diretor Ramin Bahrani trouxe a história de volta sob o prisma do mundo digital, das redes e do controle informacional. Apesar da mesma chama que queima os livros, os dois filmes iluminam épocas e ansiedades diferentes. Em *Fahrenheit 451* (1966), François Truffaut filmou o medo do esquecimento e da obediência. O fogo que consome os livros era também o fogo do conformismo e da indiferença — temas caros ao pós-guerra e à era da televisão. A estética do filme, fotografada por Nicolas Roeg, é limpa, controlada e geometricamente fria. O uso de cores primárias — especialmente o vermelho dos uniformes dos bombeiros — cria um contraste simbólico com o vazio emocional dos personagens. Truffaut não buscava um futuro tecnológico, mas um presente moralmente anestesiado. Sua mise-en-scène, minimalista e introspectiva, transforma o ato de ler em um gesto de subversão e afeto.O protagonista Montag, vivido por Oskar Werner, é um bombeiro encarregado de queimar livros. Sua jornada de dúvida e despertar interior é acompanhada pela delicadeza de Julie Christie, que interpreta tanto a esposa conformada quanto a mulher rebelde que o inspira. Essa duplicidade reforça a ideia de que a revolução — intelectual e emocional — nasce de um confronto íntimo entre o eu e o mundo. Truffaut, um diretor de leitores e cinéfilos, faz do livro um objeto sagrado, um repositório da memória humana. Sua crítica à censura é também uma defesa apaixonada da imaginação e da sensibilidade.Mais de cinquenta anos depois, o *Fahrenheit 451* (2018), dirigido por Ramin Bahrani e produzido pela HBO, surge num contexto onde os livros já não são o único suporte do conhecimento. No lugar das prateleiras queimadas, o novo filme aponta para o perigo da informação manipulada, da vigilância digital e das redes que moldam o pensamento coletivo. Michael B. Jordan interpreta um Montag mais ativo e carismático, enquanto Michael Shannon dá ao capitão Beatty uma densidade trágica e fanática. Aqui, o fogo não é apenas físico: é simbólico, feito de dados apagados e histórias reescritas.Bahrani troca o lirismo melancólico de Truffaut por uma urgência política. Sua câmera, nervosa e digital, dialoga com a estética dos noticiários e das transmissões em rede. O mundo apresentado é hipermidiático, luminoso, e paradoxalmente escuro em sua falta de verdade. Enquanto o filme de 1966 parecia um sonho febril, o de 2018 soa como um alerta direto — um espelho do nosso tempo, onde a censura se traveste de algoritmo e o esquecimento é uma escolha. Entre as duas versões, há uma diferença de tom e de esperança. Truffaut filmava a possibilidade de uma salvação pela memória e pela arte. Seu final, com os 'homens-livros' recitando obras na neve, é uma celebração da resistência humana. Bahrani, por outro lado, insinua que a luta continua em um terreno mais fluido, onde o conhecimento sobrevive em dados, mas perde algo de sua alma no processo. Um é o fogo do idealismo; o outro, o do desespero moderno.Rever os dois filmes hoje é compreender que *Fahrenheit 451* não fala apenas de livros, mas da luta pela consciência. Enquanto o de Truffaut é uma elegia à cultura impressa, o de Bahrani é um grito diante da cultura da distração. Ambos, à sua maneira, continuam incendiários. Título original: *Fahrenheit 451*Versão 1966: Direção: François TruffautRoteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard, baseado no romance de Ray BradburyElenco principal: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton DiffringFotografia: Nicolas RoegTrilha sonora: Bernard HerrmannProdução: Anglo Enterprises / Vineyard FilmAno de lançamento: 1966Duração: 112 minutosGênero: Ficção científica / Drama / Distopia Versão 2018:Direção: Ramin BahraniRoteiro: Ramin Bahrani e Amir Naderi, baseado no romance de Ray BradburyElenco principal: Michael B. Jordan, Michael Shannon, Sofia Boutella, Lilly SinghFotografia: Kramer MorgenthauTrilha sonora: Antony PartosProdução: HBO FilmsAno de lançamento: 2018Duração: 100 minutosGênero: Ficção científica / Drama / Thriller
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